quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O negociador das delações premiadas

Procurador do caso Banestado volta a brilhar na Lava Jato ao lado do juiz-celebridade e do doleiro que mentiu para a Justiça
Ideólogo e principal negociador das delações premiadas na Operação Lava Jato, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima – o mesmo que rebateu Dilma pela imprensa e disse que Lula poderia ser investigado – possui ligações curiosas com o caso Banestado, assim como o juiz federal Sérgio Moro e o doleiro Alberto Youssef, personagens reincidentes do Paraná.
Ao vê-lo nos noticiários dando entrevistas exclusivas para defender os procedimentos utilizados na operação, a pergunta que ocorreu foi: mas quem é, afinal, esse procurador que se comporta como um político de oposição sob os holofotes da mídia?
Uma reportagem da Istoé, de setembro de 2003, intitulada “Raposa no galinheiro”, nos dá uma ideia de quem estamos falando. A matéria é escrita pelo jornalista Amaury Ribeiro Júnior. Na época, ele ainda não tinha lançado o livro pelo qual ficou amplamente conhecido: “A Privataria Tucana”.
No texto, ao relatar a viagem de uma comissão com parlamentares e membros do judiciário aos EUA para apurar as denúncias do caso Banestado, o jornalista afirmou: “A viagem seria um sucesso, mas o trem quase descarrilou por causa de uma disputa insólita, cujos motivos até então ocultos se revelaram, no mínimo, de má-fé”.
E continuou:  “É que entre os procuradores estava Carlos Fernando dos Santos Lima. Santos Lima, quando servia em Curitiba, foi quem recebeu e manteve engavetado, desde 1998, o dossiê detalhadíssimo sobre o caso Banestado e uma lista de 107 pessoas que figuram na queixa-crime sobre remessa de dólares via agência em Nova York. No episódio houve aquilo que em termos jurídicos se chama de “instituto da suspeição”, já que o procurador é parte interessada no caso. Sua esposa, Vera Lúcia dos Santos Lima, trabalhava no Departamento de Abertura de Contas da filial do Banestado, em Foz do Iguaçu. Agora, na Big Apple, Santos Lima fez um tour de force para que a documentação da quebra de sigilo de várias contas, realizada pelo escritório da Procuradoria Distrital de Manhattan, também não viesse à luz, enveredando por um labirinto burocrático que, como sempre, tem seu final em pizza.
Parece mentira, mas não é. Ele é justamente o procurador que adora se posicionar na frente dos holofotes e apontar suposições. Nunca provas. É o procurador que, sem receber nenhum voto, comporta-se como um opositor ao governo que, pelo seu histórico pessoal e profissional, parece detestar.
Como bem definiu Wadih Damous, ex-presidente da OAB do Rio de Janeiro, em seu artigo: “Os que anunciam desejar “refundar a República” devem se candidatar a cargos eletivos e se submeter ao crivo do sufrágio universal. Essa não é a função de juízes e de procuradores. Já está mais do que na hora de voltar a valer um velho adágio: juiz só fala nos autos. O papel de celebridade não é apropriado para quem veste toga”.
Definitivamente, uma operação que poderia servir de combate à lavagem de dinheiro no país tornou-se uma operação que serve a interesses políticos para criminalizar o Partido dos Trabalhadores. A parcialidade de todas as decisões, focada única e exclusivamente no PT, é uma prova inquestionável do teor político da Lava Jato.
As arbitrariedades e os questionamentos à condução da operação não param por aí.
Acesse os links e saiba mais:Lava Jato e Banestado: personagens se repetem
Verdades e Mentiras: Verdade sobre o “caso” Vaccari

Dossiê comprova detalhadamente a inocência de Vaccari
Por que doações ao PT são propinas e aos demais partidos ‘contribuição eleitoral’?MPF confirma erro sobre depósito na conta da filha de VaccariDelatores se contradizem sobre VaccariLaudo da Polícia Federal confirma: Marice foi presa por engano
Justiça de exceção é vingança
Por que é mesmo que Vaccari está preso?
Matéria do Estadão sobre Vaccari é irresponsávelMPF ignora provas da defesa e pede para manter prisão de Vaccari
Moro acata manifestação do MPF e ignora provas da defesa de VaccariSe a lei vale para todos, por que tesoureiros dos demais partidos não estão presos?Lava Jato: Vaccari é levado à audiência e esquecido na sala de esperaPor que o tesoureiro do PSDB e dos demais partidos não estão na cadeia?‘Folha’ e Youssef perdem a memória e inventam notícia pró-PSDB
ENTENDA: COMO FUNCIONA A OPERAÇÃO LAVA JATOENTENDA O “CASO” VACCARIPor que a Operação Lava-Jato está corrompida?
Pessoas, histórias e lutas que não ficarão pelo caminho

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A tortura imposta por Sérgio Moro a um velho doente de 74 anos. Por Paulo Nogueira

Postado em 30 mai 2015 por :
Com João Roberto Marinho: na Globo ninguém mexe
Sérgio Moro é o pior tipo de justiceiro. É o que se faz passar por bonzinho.
É o que se observa num vídeo que está circulando nas redes sociais. Nele, Moro concede uma audiência ao preso Mário Góes.
O objetivo de Góes ali era conseguir prisão domiciliar.
Várias coisas chamam a atenção no vídeo.
A primeira é o estado de desabamento moral e físico de Góes. Ele tem uma série de doenças que vão de diabete a colite, e um problema de coluna o impede de ficar sentado com conforto.
Está emocionalmente desequilibrado. Chorou na conversa com Moro, e é evidente que não estava interpretando um coitadinho ali.
Góes era o coitadinho.
E tem 74 anos.
Considere. Na Itália, a partir dos 70 anos, você não cumpre sentenças na cadeia, e sim em prisão domiciliar.
Por razões humanitárias.
Diz-se de Moro que ele se inspirou numa operação policial italiana – afinal espetacularmente fracassada — para desencadear a Lava Jato.
Mas pelo visto desconsiderou a civilidade que existe no código da Itália.
Góes não poderia cumprir pena domiciliar? Por que?
Bem, perguntas não faltam no caso. A mais impressionante é a seguinte: quais são as evidências contra Góes?
Moro parece tão no ar sobre isso quanto você e eu. Moro fala em contas em paraísos fiscais, genericamente.
Mas admite, candidamente, não saber nada delas. Sequer, e é ele quem afirma, se estão ativas ou não.
É o triunfo do absurdo.
Mais um, a rigor. Num outro vídeo de Moro, desta vez com Cerveró, ficamos sabendo que a principal acusação do juiz era uma reportagem – logo de quem – da Veja, uma revista mitomaníaca.
Recentemente a BBC visitou o presídio onde Góes está. A descrição é esta: “A maior parte das celas são sujas e apertadas. Algumas têm até seis camas e estão frequentemente abarrotadas de cadeiras de rodas e equipamento médico.”
A maior parte das celas no são sujas e apertadas. Algumas tem até seis camas e estão frequentemente abarrotadas de cadeiras de rodas e equipamento médico
Moro é uma versão atualizada, mas não necessariamente melhor, de Joaquim Barbosa.
Ele agrada, como JB, a dois públicos específicos: o poder econômico e os analfabetos políticos.
Alguém consegue imaginar Moro e Barbosa enfrentando a Globo, por exemplo? Ou mesmo a CBF e Marin?
Como os vazamentos da Lava Jato na campanha eleitoral, a valentia dos dois é seletiva.
Ambos, não por coincidência, foram premiados pela Globo.
E os dois são heróis de grupos de imbecis como o MBL e o Revoltados Online.
São, também, abominados pelos progressistas.
Falta-lhes, em comum, uma característica tão brasileira: a compaixão.
JB tripudiou sobre Genoino quando este estava em condições de saúde miseráveis.
Moro faz o mesmo agora com Góes.
Eles representam a plutocracia brasileira, e a defendem ferozmente.
Mas não representam os brasileiros.
Gente assim não é perdoada pela história.

Texto original: DCM

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

MTST esclarece confronto com fascistas


Por Altamiro Borges

O clima esquentou no gramado diante do Congresso Nacional na tarde desta quarta-feira (28). Cerca de 120 ativistas do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que foram a Brasília protestar contra a votação da chamada "lei antiterrorismo" - que criminaliza os movimentos sociais -, entrou em confronto com os engravatados do Movimento Brasil Livre (MBL), um grupo direitista que prega o impeachment de Dilma e a volta dos militares ao poder. Houve bate-boca e empurra-empurra. A mídia golpista, que nunca criticou as hostilidades e as agressões patrocinadas pelos fascistas mirins, já tenta manipular as informações para satanizar o MTST e endeusar os "coxinhas" do MBL.

Em seu site, o jornal O Globo - que nunca escondeu o seu ódio aos movimentos sociais - garante que "a briga começou depois que os sem-teto decidiram acampar ao lado dos manifestantes do MBL, que já estão acampados no gramado do Congresso Nacional desde quinta-feira passada". Ele até divulga um vídeo gravado pelos fascistas mirins, que posam de vítimas inocentes, mas não publica a nota do MTST, divulgada em seu site oficial, com a sua versão sobre o episódio. A manipulação é descarada!

Segundo o jornalão da famiglia Marinho, os sem-teto "invadiram" uma área já ocupada pelos "jovens" pacíficos do MBL. Nem sequer a decisão da própria Polícia Legislativa foi divulgada. Foi ela quem determinou que os dois movimentos ocupassem o mesmo espaço no gramado. O site Congresso em Foco, que não pode ser acusado de simpatizante do MTST, informa que esta ordem "foi confirmada pela reportagem com policiais que estavam no local". 

O Globo também omite que Eduardo Cunha, presidente da Câmara Federal e herói dos fascistinhas mirins, autorizou a montagem das 30 barracas do MBL no gramado diante do Congresso. A ocupação deste local estava terminantemente proibida para qualquer movimento desde 2001, mas foi violada pelo lobista amiguinho dos grupelhos golpistas mirins que pedem o impeachment de Dilma. Os sem-teto simplesmente aproveitaram a brecha aberta pelo correntista suíço. 

Reproduzo abaixo a nota dos sem-teto - que o jornal da famiglia Marinho preferiu não divulgar:

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O MTST organizou um ato no dia de hoje, 28/10, em frente ao Congresso Nacional, contra a aprovação da Lei Antiterrorismo de iniciativa do governo federal, que pretende criminalizar movimentos sociais.

No gramado do Congresso Nacional, encontramos representantes do dito Movimento Brasil Livre (MBL), que fizeram provocações e hostilidades aos lutadores do MTST.

Reagimos como deve se reagir com fascistas. O MTST permanecerá acampado em frente ao Congresso Nacional contra a Lei Antiterrorismo, denunciando as medidas do ajuste fiscal de Dilma e exigindo a saída de Eduardo Cunha.

Um provocador ligado ao MBL e parlamentares da direita buscaram dar dinheiro as pessoas que estavam na manifestação tentando descaracterizar e desmoralizar o movimento!

É o velho preconceito da elite, que quer construir a ideia de que as mobilizações do povo pobre são motivadas por interesses menores.

O gramado do Congresso não é propriedade dos coxinhas!


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Texto original: BLOG DO MIRO

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Uma justiça para a família Vaccari. Outra para a família Cunha

Por que Sérgio Moro pediu a prisão da cunhada do petista com base em uma falsa imagem e mantém livre a esposa de Cunha, titular de contas ilegais na Suíça?

Najla Passos

Coordenadora financeira do Centro Sindical das Américas, Marice Corrêa de Lima estava no Panamá, participando de um congresso da entidade, no dia 15 de abril deste ano, quando tomou ciência de que sua prisão temporária havia sido decretada pelo juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato. Foi quando ela soube também que seu cunhado, o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, havia sido preso e sua irmã e esposa dele, Giselda de Lima, cumprira mandado de condução coercitiva.

Dada como foragida, Marice só soube das provas que pesavam contra ela dois dias depois, quando retornou ao país e se apresentou espontaneamente à Polícia Federal: o Ministério Público Federal (MPF) a identificou como a mulher que aparecia em imagens cedidas pelo Banco Itaú efetuando depósitos na conta de sua irmã, Giselda, em duas agências da capital paulista. Foi o suficiente para o juiz Sérgio Moro acatar a tese de que ela estaria ajudando Vaccari a lavar o dinheiro oriundo da corrupção.

No dia 20, o MPF chegou a pedir a conversão da sua prisão temporária em preventiva, para que ela ficasse detida por tempo indeterminado. "Tudo indica que Giselda [mulher de Vaccari] recebe uma espécie de 'mesada' de fonte ilícita paga pela investigada Marice, sendo que os pagamentos continuam sendo feitos até março de 2015. Nesse contexto, a prisão preventiva de Marice é imprescindível para a garantia da ordem pública e econômica, pois está provado que há risco concreto de reiteração delitiva", sustentaram os procuradores.

Marice negava. Mas o juiz Sérgio Moro estendeu a prisão temporária dela, que vencia no dia 20, por mais cinco dias. Ele teve que voltar atrás no dia 23, liberar a investigada e reconhecer o erro primário: uma perícia feita pela PF comprovou que não era Marice que aparecia nas imagens, mas a própria Giselda. A frágil prova jurídica apresentada pelo MPF, acatada pelo juiz e amplamente divulgada pela imprensa caíra por terra. “Elas são muito parecidas”, desculparam-se procuradores e juiz.

Dois pesos e uma medida

Situação bem diversa vive a família do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), também acusado de envolvimento no mesmo esquema da Petrobrás, investigado pela mesma Operação Lava Jato. No dia 20 de agosto, a Procuradoria Geral da República (PGR) encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de abertura de investigação contra o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), acusado de receber pelo menos US$ 5 milhões em propinas de uma empresa contratada pela estatal.

Na denúncia, a PGR pede que ele seja condenado por dois crimes de corrupção passiva e 60 operações de lavagem de dinheiro. Isso mesmo: 60 operações de lavagem de dinheiro. E não se tratam de depósitos fracionados em agências bancárias do Itaú, aqui mesmo no Brasil, mas de um esquema sofisticado que envolve contas em paraísos fiscais, empresas offshores e até a utilização de doações à igreja Assembleia de Deus de Madureira, no Rio de Janeiro, frequentada por Cunha.

Quatro das contas utilizadas por Cunha e seus familiares estão registradas no banco suíço Julius Baer. Três delas em nome de empresas offshores ligadas diretamente ao presidente da Câmara. Uma quarta aparece com o nome fantasia KOEK, mas um dossiê encaminhado pelo Ministério Público Suíço às autoridades brasileiras comprova que sua titular é a ex-apresentadora da TV Globo, Cláudia Cruz, esposa de Cunha. Uma das filhas do casal é registrada como dependente. Conforme o MP suíço, as quatro contas registraram entrada de cerca de R$ 31,2 milhões e saídas de R$ 15,8 milhões, entre 2007 e 2015, em valores corrigidos.

A conta movimentada por Cláudia vem sendo usada para sustentar, com o dinheiro da corrupção, alguns luxos pouco comuns à imensa maioria dos brasileiros. De janeiro de 2013 a abril de 2015, ela cobriu US$ 525 mil em débitos de um cartão de crédito. Outros US$ 316,5 mil foram destinados ao pagamento de um segundo cartão, em quatro anos. Uma famosa academia de tênis da Flórida, a IMG Academies, recebeu US$ 59,7 mil do montante. A família destinou US$ 8.400 à escola inglesa Malvern College e transferiu US$ 119,7 mil para a Fundacion Esade, da Espanha.

O processo contra Cunha foi parar no STF porque ele tem direito a foro privilegiado, o que não é o caso de Cláudia. As investigações contra ela, se é que já foram transformadas em denúncia, continuam na justiça comum, ou seja, nas mãos de Sérgio Moro, aquele rápido o suficiente para mandar prender a cunhada de Vaccari antes de saber se era ela, de fato, nas imagens que sustentavam a decisão.

O curioso é que mesmo com todas as provas enviadas ao Brasil pelas autoridades da Suíça, não se tem notícia de que ele sequer a tenha convocado para depor. Antes da PGR receber o dossiê do MP suíço sobre o casal, nenhuma acusação contra ela foi vazada para a imprensa. Será que o juiz que decretou a prisão da cunhada de Vaccari no afogadilho, com base em imagens que nem eram delas, não quer se arriscar a incomodar a mulher do poderoso chefe da Câmara?

Debate jurídico

Os erros, atropelos e excessos cometidos no âmbito da Operação Lava Jato têm suscitado um amplo debate jurídico no país. Há quem aplauda e quem condene o estilo do juiz Sérgio Moro de conduzir o processo. O que ninguém discorda é que - para usar um termo que se tornou bastante usual no mundo jurídico desde o chamado mensalão – ele esteja “inovando” em matéria legal. E o caráter seletivo de suas ações é, sem dúvida alguma, parte fundamental desta “inovação”.

Em palestra na capital norte-americana, no último dia 19, o presidente do STF, ministro Ricardo Lewandowski, declarou que a Lava Jato é uma “revolução” no país. “As investigações têm sido muito bem conduzidas. Nós temos algumas sentenças, sentenças muito duras, alguns dos altos executivos do Brasil já foram condenados a passar 15 ou 20 anos na cadeia. É realmente algo novo", disse ele.

Mas há também quem conteste o estilo Moro. No dia 10 de outubro, em seminário promovido pela OAB, o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Sebastião Reis, criticou duramente a banalização de uma das principais “inovações” introduzidas pela operação: a utilização da delação premiada como jamais visto antes no país. “A delação está sendo banalizada. Tem mais colaborador do que réus na ‘lava jato’”, afirmou.

Ele também destacou que o instrumento gera seletividade nas condenações. “O Estado está abrindo mão do direito de punir em troca da condenação de três, quatro pessoas”, ressaltou. E condenou o vazamento seletivo das delações para a imprensa que, segundo ele, prejudica a defesa dos citados e pressiona os juízes que atuam no caso a condenarem os acusados.

Uma pesquisa realizada pela revista Consultor Jurídico e divulgada no último dia 15 mostrou que todas as delações firmadas no âmbito da Lava Jato violam a Constituição e as leis penais. A revista analisou 23 acordos homologados por Moro e descobriu que eles preveem, por exemplo, que nem mesmo os advogados de defesa tenham acesso às transcrições dos depoimentos do delator, que ficam restritas ao Ministério Público Federal e ao juiz, o que viola o principio do contraditório e o direito à ampla defesa.

O estudo também mostra que os acordos impedem os delatores contestarem suas sentenças judicialmente, o que viola o direito de ação (artigo 5º, XXXV), que assegura que nenhuma lesão ou ameaça a direito pode ser excluída da apreciação do Judiciário. E ainda que, tal como o Ato Institucional nº 5, editado durante a ditadura militar, os acordos da Lava Jato vedam completamente aos réus a possibilidade de impetração de habeas corpus, entre outras críticas apontadas.

Operadores do direito têm criticado também a mão pesada e seletiva do juiz Sérgio Moro para determinar prisões, ainda que de forma diferente para os diferentes envolvidos, no país que vive o dilema de possuir a quarta maior população carcerária do mundo e desrespeita com frequência as garantias individuais previstas pela própria Constituição. Não por acaso, por conta da sua atuação na Lava Jato, Moro virou o garoto-propaganda de um projeto de lei apresentado pela Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) ao Senado que prevê a prisão de réus condenados em 2ª instância antes mesmo da conclusão do devido processo legal.

Em audiência pública realizada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para debater a proposta, ele foi rechaçado por seus pares, que defenderam é possível avançar no combate à corrupção sem reduzir as garantias individuais previstas na Constituição. No debate, o juiz Rubens Casara, especialista em direito processual penal, que citou diretamente a Lava Jato ao operar suas críticas ao projeto defendido por Moro, lembrou que tanto no fascismo clássico italiano, quanto no nazismo alemão e no stalinismo soviético, a presunção de inocência foi relativizada.

O magistrado não tocou no episódio que envolveu Marice e nem em nenhum outro, mas sustentou que a presunção da inocência é importante porque os juízes erram muito e por motivos diversos. Entre eles, citou, inclusive, a pressão da mídia e o medo de serem tarimbados como “petralhas”. “Falta coragem para decidir contra a opinião pública, que muitas vezes não passa da opinião publicada pela imprensa”, ressaltou.

Elmir Duclerc Ramalho Junior, promotor na Bahia e professor de direito processual penal, reforçou que o projeto - inspirado na atuação de Moro na Lava Jato – está impregnado pelo autoritarismo. “Há uma tendência autoritária perigosa que lembra, sim, períodos autoritários da história da humanidade”, afirmou. Ele destacou que a população carcerária brasileira cresceu 16 vezes mais do que a população do país. “Não há malabarismo hermenêutico possível para dizer que não há a incorporação de um pensamento autoritário neste projeto”, disse.

Professor de Criminologia da Faculdade de Direito da USP, Maurício Stegemann Dieter fez uma das críticas mais agressivas ao projeto e ao seu garoto-propaganda. De acordo com ele, o projeto está centrado em uma espécie de “populismo midiático”, que dispensa o conhecimento científico para se calcar no senso comum. Ele lembrou que nunca se prendeu tanta gente na história do país, inclusive gente do andar de cima, como políticos e donos de empreiteiras. Por isso, ele classifica como delírio a premissa que embasa o projeto e o discurso de Moro: a de que o “Brasil é o país da impunidade”.

Um quase epílogo

No dia 20 de setembro passado, João Vaccari Neto foi condenado por Moro a 15 anos e quatro meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e associação criminosa, pelo recebimento de pelo menos R$ 4,26 milhões em propina de contratos da Petrobras. Mas como os processos da Lava Jato correm em segredo de justiça e a imprensa só tem acesso ao que convém para seus condutores, ainda é difícil saber se há, de fato, provas contra Marice e Giselda, como sustentava o MPF em abril deste ano.

Pode ser que sim. A revista Veja, um dos veículos presenteados com vazamentos seletivos do processo, diz que, entre 2008 e 2014, entraram R$ 322,9 mil na conta de Giselda, em vários depósitos parcelados. Segundo O Estado de S. Paulo, outro destinatário dos vazamentos seletivos, Marice teria recebido, em dezembro de 2013, propina da empreiteira OAS, alvo da investigação sobre corrupção e desvios na Petrobrás. Mas ambos os veículos também disseram que Marice era a mulher que aparecia fazendo depósitos nas agências do Itaú. Então, fica difícil ter certeza de qualquer coisa.

Mesmo atolado em denúncias de corrupção, manobras e desmandos de todo tipo, Cunha continua presidindo a Câmara dos Deputados do país. É o segundo na linha de sucessão da presidenta Dilma Rousseff e o homem que irá decidir se o parlamento acolherá ou não seu pedido de impeachment, como pleiteia a oposição. O processo contra ele continua a tramitar no STF, agora sob sigilo. Partidos como o PSOL, Rede, PT e PSB já pediram a cassação do seu mandato, mas ele se recusa, inclusive, a deixar a presidência da Câmara. De Cláudia Cruz, não se tem nenhuma noticia. Continua livre, leve e solta.
Texto original: CARTA MAIOR

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

RBS, afiliada da Globo, pagou R$ 11,7 milhões para conselheiro do CARF

A Operação Zelotes apura o envolvimento de funcionários públicos e empresas no esquema de fraude fiscal que pode ter causado um prejuízo de R$ 19,6 bilhões

Najla Passos

Documentos sigilosos vazados nesta quinta (22) comprovam que o Grupo RBS, o conglomerado de mídia líder no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, pagou R$ 11,7 milhões à SGR Consultoria Empresarial, uma das empresas de fachada apontadas pela Operação Zelotes como responsáveis por operar o esquema de tráfico de influência, manipulação de sentenças e corrupção no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), o órgão vinculado ao Ministério da Fazenda que julga administrativamente os recursos das empresas multadas pela Receita Federal. 

A SCR Consultoria Empresarial é umas das empresas do advogado e ex-conselheiro do CARF, José Ricardo da Silva, indicado para compor o órgão pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) e apontado pela Polícia Federal (PF) como o principal mentor do esquema. Os documentos integram o Inquérito 4150, admitido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na  última segunda (19), que corre em segredo de justiça, sob a relatoria da ministra Carmem Silva, vice-presidente da corte. 
Conduzida em parceria pela PF, Ministério Público Federal (MPF), Corregedoria Geral do Ministério da Fazenda e Receita Federal, a Operação Zelotes, deflagrada em março, apurou o envolvimento de funcionários públicos e empresas no esquema de fraude fiscal e venda de decisões do CARF que pode ter causado um prejuízo de R$ 19,6 bilhões aos cofres públicos. Segundo o MPF, 74 julgamentos realizados entre 2005 e 2013 estão sob suspeição. 
As investigações apontam pelo menos doze empresas beneficiadas pelo esquema. Entre elas a RBS, que era devedora em processo que tramitava no CARF em 2009. O então conselheiro José Ricardo da Silva se declarou impedido de participar do julgamento e, em junho de 2013, o conglomerado de mídia saiu vitorioso. Antes disso, porém, a RBS transferiu de sua conta no Banco do Rio Grande do Sul, entre setembro de 2011 e janeiro de 2012, quatro parcelas de R$ 2.992.641,87 para a conta da SGR Consultoria Empresarial no Bradesco. 
Dentre os documentos que integram o Inquérito 4150 conta também a transcrição de uma conversa telefônica entre outro ex-conselheiro do Carf, Paulo Roberto Cortez, e o presidente do órgão entre 1999 e 2005, Edison Pereira Rodrigues, na qual o primeiro afirmava que José Ricardo da Silva recebeu R$ 13 milhões da RBS. “Ele me prometeu uma migalha no êxito. Só da RBS ele recebeu R$ 13 milhões. Me prometeu R$ 150 mil”, reclamou Cortez com o então presidente do Carf.
Suspeitos ilustres
Os resultados das investigações feitas no âmbito da Operação Zelotes foram remetidos ao STF devido às suspeitas de participação de duas autoridades públicas com direito a foro privilegiado: o deputado federal Afonso Motta (PDT-RS) e o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Augusto Nardes. O deputado foi vice-presidente jurídico e institucional da RBS, afiliada da Rede Globo no Rio Grande do Sul. Os termos de sua participação no esquema ainda são desconhecidos.
Nardes, mais conhecido por ter sido o relator do parecer que rejeitou a prestação de contas da presidenta Dilma Rousseff relativa ao ano de 2014, por conta das polêmicas “pedaladas fiscais”, é suspeito de receber R$ 2,6 milhões da mesma SGR Consultoria, por meio da empresa Planalto Soluções e Negócios, da qual foi sócio até 2005 e que ainda hoje permanece registrada em nome de um sobrinho dele.
Processo disciplinar
Nesta quinta (22), a Corregedoria Geral do Ministério da Fazenda anunciou a instalação do primeiro processo disciplinar suscitado pelas investigações da Operação Zelotes. Em nota, o órgão informou que o caso se refere a uma negociações para que um conselheiro do CARF pedisse vistas de um processo, sob promessa de vantagem econômica indevida, em processo cujo crédito tributário soma cerca de R$ 113 milhões em valores atualizados até setembro.

Com informações do Correio do Povo


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O delator, a nora de Lula e uma história mal contada

A delação de Fernando Baiano deixa mais dúvidas do que certezas

por Henrique Beirangê — publicado 21/10/2015 19h01, última modificação 22/10/2015 09h35


Não cabe à imprensa advogar em nome de ninguém, mas também é necessário o exercício da honestidade intelectual para se aproximar da veracidade dos fatos.
Se o ex-presidente Lula foi o “grande chefe do esquema” como parte da imprensa deseja, que seja preso, assim como todos que se beneficiaram do saque a Petrobras, investigado pela Operação Lava JatoAté o momento, no entanto, não há nenhuma prova concreta da materialidade do seu envolvimento.
Não foi encontrada no nome de Lula nenhuma conta na Suíça, como ocorreu com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Também não foram identificados pagamentos diretos como para o senador Fernando Collor (PTB-AL) ou para o ex-deputado petista André Vargas (PR).
O Estado Democrático de Direito se consolida quando a lei é aplicada com isonomia para todos, independentemente do posto e da coloração partidária ocupados. Mas, em nome da busca pela “verdade”, a imprensa tem o dever de entregar à sociedade a informação sem sensacionalismo, mesmo que pressionada pelo afã do “furo jornalístico”.
O depoimento do lobista Fernando Soares, o Baiano, foi divulgado por toda a imprensa mostrando a revelação de um suposto pagamento de 2 milhões de reais a uma nora de Lula, sugerindo o envolvimento do ex-presidente no esquema Petrobras. O depoimento traz uma confusão entre alhos e bugalhos, entretanto, reforçada pelo fato de que boa parte dos leitores para de ler no primeiro parágrafo da notícia, quando não leem apenas o título da matéria.
Assim, a história ficou apresentada de forma enviesada.
A informação é baseada no termo de delação 15, concedido à Procuradoria-Geral da República. A íntegra do texto pode ser lida, mas, resumindo-se: Lula teria intercedido em uma concorrência de aquisição de navios sondas para a Sete Brasil, empresa que tem entre seus investidores a Petrobras, para que a OSX, de Eike Batista, levasse o contrato. Baiano, representante dos interesses da OSX, conta que procurou o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula, para que ele interviesse na compra dos navios.
Como o próprio Baiano afirma, Bumlai e o presidente da Sete Brasil, José Carlos Ferraz, teriam procurado Lula para que a OSX levasse os contratos. Não há no depoimento nenhum trecho em que Lula aparece dizendo que fraudaria a licitação.
Cabe lembrar também que empresa de Eike não ganhou a concorrência e ficou de fora das compras. Então, se OSX não ganhou nenhum centavo com a aproximação com Lula, por qual motivo, razão ou circunstância a nora de Lula receberia dinheiro de Bumlai?
Baiano disse que Bumlai afirmou a necessidade de 3 milhões de reais como adiantamento da comissão do futuro contrato (que acabou não sendo firmado) para saldar uma dívida com a nora de Lula. Baiano deu o dinheiro, na confiança (na verdade pouco menos de 2 milhões de reais), mas não ganhou nada com a aproximação de Bumlai. Tanto é que Baiano sentiu ter "levado um cano". Assim, procurou o pecuarista para pegar o dinheiro de volta, mas nunca viu um centavo por conta da aproximação com Lula.
Diante desta confusa história, fica claro que, se o presidente esteve envolvido na fraude da estatal, ainda há muito a ser investigado. É importante que se vá, mesmo, até as últimas consequências.
Cabe notar, também, que pagar propina por um serviço que nunca foi entregue, no entanto, não faz o mínimo de sentido.

Em São Paulo, temos o testemunho de casos como o da fraude do Metrô, nos quais ninguém foi preso, não houve delações premiadas e todos gozam da mais plena impunidade. Ainda assim, se a República tiver de ser passada a limpo, mesmo que seletivamente, que façamos isso fundamentados na verdade dos fatos e não em falsas manchetes plantadas por uma parcela da imprensa que se porta de maneira partidária.
Texto original: CARTA CAPITAL

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Sheherazade "adota" Eduardo Cunha!

Por Altamiro Borges

Em fevereiro de 2014, a apresentadora Rachel Sheherazade, já famosa por suas opiniões direitistas no SBT, gerou revolta nas redes sociais ao justificar uma cena de barbárie no Rio de Janeiro. Na ocasião, um grupo de "justiceiros" - depois identificados como jovens criminosos da classe média - aprisionou um rapaz negro a um poste. Empolgada, a "jornalista" apoiou o ato de selvageria e ainda esbravejou ao vivo. "Aos defensores dos direitos humanos, que se apiedaram do marginalzinho no poste, lanço uma campanha: 'Faça um favor ao Brasil. Adote um bandido". Já nesta sexta-feira (16), ela postou em seu blog um texto em defesa do Eduardo Cunha. Num gesto de coerência, ela adotou o lobista!

Na postagem intitulada "Boi de Piranha", a âncora do SBT não esconde o motivo desta adoção. Para ela, nem as provas das contas secretas na Suíça justificam "prender no poste" o presidente da Câmara Federal. Todo o alarde sobre seus escândalos de corrupção não passaria de uma trama das forças de esquerda. "Ávidos para blindar Dilma Rousseff de um processo de impeachment na Câmara, o PT e o seu 'puxadinho ideológico', o PSOL, continuam em seu périplo pelos corredores colhendo assinaturas para pedir o afastamento do presidente da casa, Eduardo Cunha, arqui-inimigo da petista".

A equilibrada jornalista, defensora do linchamento de jovens negros, segue na argumentação. "Dilma nunca engoliu Cunha. Era seu mais ferrenho opositor. Venceu a eleição da mesa diretora derrotando, de forma acachapante, o candidato do governo, que, fatalmente, transformaria o Poder Legislativo num capacho do Executivo. Desde então, o presidente da Câmara tornou-se o malvado favorito das esquerdas". Já sobre as contas secretas na Suíça, Rachel Sheherazade pede calma aos seus seguidores. "No que diz respeito ao presidente da Câmara, tudo está ainda no campo das suspeitas. Verdade seja dita: Eduardo Cunha não é réu até que o inquérito se torne processo judicial, não é culpado, até que a Justiça diga o contrário. Por enquanto, o presidente da Câmara não passa de um investigado".

Sempre serena e sensata, ela faz questão de realçar o papel histórico do lobista. "Apesar de todos os ataques, Cunha ainda resiste e tem nas mãos um trunfo poderosíssimo contra o governo. É dele, e somente dele, o poder de aceitar ou recusar um pedido de afastamento da presidente da República.
Eis o interesse do PT e seus congêneres na sua cassação: sepultar a possibilidade do impeachment da presidente. Para não ser abatido, o governo quer aniquilar seu maior algoz, livrando-se do julgamento político... Eduardo Cunha se tornou o boi de piranha perfeito. Enquanto é devorado pelos inimigos, o rebanho de corruptos atravessa o rio, imune, ileso, impune! E os idiotas, úteis ao projeto criminoso do poder, aplaudem". Preocupada com o futuro do lobista, Sheherazade resolveu "adotá-lo". Que lindo!

Texto original: BLOG DO MIRO