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domingo, 15 de fevereiro de 2015

Mídia atropela a notícia para servir ao “governo anterior”

publicado em 13 de fevereiro de 2015 às 10:54

Foto do Facebook de Maurício Machado registra: “período que antecede o governo petista” é governo FHC!

por Luiz Carlos Azenha

Milhares de pessoas cercam o prédio de uma assembleia legislativa. Encaram bombas e balas de borracha. Impedem a votação do plano de austeridade de um dos principais governos estaduais do Brasil.

Manchete da Folha? Outra notícia, vinda também de Curitiba, extraída de um antigo depoimento do doleiro: José Dirceu sabia (dos desvios na Petrobras). Depoimento, aliás, desmentido pelo próprio. E pelo também citado tesoureiro do PT, João Vaccari. O doleiro disse à PF o que bem entendeu. No caso, ele é o réu confesso. Mas sua palavra é publicada como verdade absoluta e inquestionável.

O que está acontecendo?

O suposto envolvimento de Dirceu cai como uma luva no roteiro. Mensalão + petrolão = Lula derrotado em 2018. Mas, para que tenha credibilidade, é preciso eliminar do escândalo o que a Globonews chamou de “período que antecede o governo petista”. Sarney? Itamar? Médici?

É por isso que, como notou o presidente do PT, a curiosidade dos delegados que colhem depoimentos na Operação Lava Jato parece se fixar no período pós-2003.

É como se Youssef, o doleiro, não tivesse servido também a tucanos.

Aliás, a credibilidade do PT está no fim com os eleitores também pelo fato de o partido ter convivido muito bem, sempre, com a herança maldita dos antecessores.

A origem da máfia dos sanguessugas — que vendia ambulâncias superfaturadas — foi o ministério da Saúde sob José Serra, mas ela prosseguiu depois que Lula assumiu o poder.

O mesmo aconteceu com a máfia dos vampiros — que negociava hemoderivados.

O PT de Lula, em nome de um acordo em Minas, manteve no poder em Furnas o diretor Dimas Toledo, justamente o homem da Lista de Furnas, o esquema de financiamento de campanha de tucanos e aliados através dos fornecedores da estatal.

Marcos Valério serviu ao esquema de caixa 2 do PSDB e aliados antes de repetir a jogada com o PT e aliados.

Quando o PT no poder teve a oportunidade de provocar rupturas com o passado, não o fez.

CPI do Banestado? Terminou em acordão. CPI da Privataria? Nem então, nem depois do livro de Amaury Ribeiro Jr.

Quando um delegado da Polícia Federal teve a coragem de encanar o banqueiro, o governo se voltou… contra o delegado. O chefe da Polícia Federal foi mandado para o exílio. O banqueiro hoje financia um site de apoio ao governo Dilma!

Quando um repórter da Veja foi flagrado em aliança jornalística com o bicheiro, o PT olhou, olhou e fez que não viu.

Por isso, não foi surpresa quando o vice de um governador tucano — Afif Domingos — se tornou ministro de uma presidente petista.

Ninguém enrubesce com a perspectiva de ver Marta Suplicy, petista histórica, concorrendo à Prefeitura de São Paulo pelo PSB com o apoio de Geraldo Alckmin.

É nesta geleia geral que Curitiba assume relevância ainda maior. Não a Curitiba do Moro, mas a que impediu a austeridade de Beto Richa.

É junho de 2013, de novo.

Mas a mídia não entendeu isso. Ela está ocupada na campanha que parece não ter fim: criminalizar apenas um dos irmãos — eles estão ficando cada vez mais parecidos.

Não mencionem “PSDB” que ela enterra nas páginas internas. Na Globo, como famosamente saia no Jornal Nacional já na campanha de 2006, é “o governo anterior”.

Para esconder o grande desastre em andamento no Brasil, o apagão da água em São Paulo — este sim, não é um depoimento sem provas –, disfarça criando a perspectiva de um racionamento de energia que ainda nem é considerado.

É a mídia, em campanha permanente contra o trabalhismo desde 2003.

PS do Viomundo: Conforme dissemos anteriormente, quando a blogosfera entrou em surto com a eleição de Eduardo Cunha, ele nunca se interessou pelo impeachment de Dilma. Definido como lobista por Altamiro Borges, o deputado carioca é isso: serviçal da grana. Ele não vai entregar a chave do cofre para os tucanos. Jamais. Cunha é o artífice da reação da elite brasileira contra junho de 2003. Se deixarem, vai fazer uma reforma política que nos fará ficar com saudade daquele Congresso cercado pelos manifestantes.

Leia também:
PT pede que investigações da Lava Jato se estendam ao governo FHC

Texto original: VI O MUNDO

A pauta da rebelião curitibana

A mídia, abestalhada de tanto bolor reacionário, não deu a mínima para os protestos contra as medidas do governo do Paraná, que coincidentemente, é do PSDB

Da redação

Na última quinta-feira, Curitiba, a capital paranaense, assistiu a uma rebelião como há muito não se via no estado, governado atualmente pelo tucano Beto Richa, reeleito em 2014.

Milhares de professores e servidores públicos em greve cercaram a Assembleia Legislativa do Estado para impedir a entrada de deputados e a sessão do dia. Na pauta principal havia um fornido pacotaço de arrocho que atingiria duramente a qualidade da escola pública e a remuneração do professorado do Paraná.

A base de apoio de Beto Richa, festejada pela mídia conservadora como um ’tucano promissor’ após a reeleição em primeiro turno no ano passado, conseguiu alcançar o prédio viajando em ônibus blindado e escoltado, que usou o acesso dos fundos do edifício.

Foto: Leandro Taques / Mídia Ninja 

O episódio só elevou a tensão do lado de fora.

A partir daí, o aparato policial que despejava bombas, cacetes e gás nos manifestantes percebeu que a revolta dificilmente seria contido sem sangue quando a massa decidisse invadir o prédio.



Acuado pelo formigueiro humano em ebulição, o governador do PSDB recuou e retirou o pacotaço da pauta. De saída chamou de ‘baderneiros’ os manifestantes que festejavam nas ruas da capital paranaense sem baixar o cerco na Assembleia. 

Fosse na Ucrânia, ou no conflagrado Paquistão, ou ainda no Congo, ou por certo se ocorresse no entorno da Casa Rosada, na Argentina, melhor ainda, tivesse havido um cerco semelhante no palácio do governo em Caracas, quem sabe em Havana, como reagiria a mídia isenta e seu colunismo abestalhado de tanto bolor reacionário? 

Foto: Leandro Kissner / Fotos Públicas 

Abriria fotos de cinco colunas na primeira página dos diários e providenciaria escaladas extras dos telejornais em cobertura ao vivo.

Em estado de choque, porém, com o atropelamento de um de seus delfins, o que se viu de fato foi a suavização indecorosa do noticiário do levante curitibano, que teve suas imagens sonegadas em quase todos os diários na primeira página, e uma cobertura envergonhada nas internas. A Folha, por mérito, se impõe como paradigma dessa norma. Ao lado de uma foto de Pizzolato, entrando e um carro na Itália, deu um pequeno registro da explosão popular em Curitiba na 1ª página. E só na página 8 voltaria ao assunto com uma cobertura burocrática na qual não informava, sequer, o motivo da revolta e a reivindicação dos manifestantes: imedir o desmonte da escola pública por um governador do PSDB.

Para suprir essa lacuna deliberada de informação, leia abaixo as explicações do Sindicato dos professores do Paraná:

GREVE GERAL! BARRAR O DESMONTE DA ESCOLA PÚBLICA NO PARANÁ

Ele foi eleito Governador, não Imperador!

Só a mobilização imediata com uma GREVE GERAL por tempo indeterminado poderá barrar a sanha destrutiva do governo Beto Richa(PSDB) sobre a educação do Paraná!

Os(as) Trabalhadores(as) em Educação Pública do Paraná, através da APP-Sindicato, vem há décadas lutando intensamente pela ampliação de seus direitos, por melhores condições de trabalho e consequentemente por uma escola pública de mais qualidade. Juntamente com colegas educadores(as) de todo o Brasil reunidos na CNTE – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, travamos uma luta por um sistema público de educação e por valorização dos profissionais da Educação que remonta aos tempos do Brasil imperial.

Assim pensando, lutando e resistindo, avançamos coletivamente nos últimos anos em conquistas importantíssimas como: Planos de carreira de Professores(as) e Funcionários(as), equiparação salarial do magistério – não faz tempo os professores recebiam salários muito mais baixos que os demais servidores aos quais também é exigido nível superior para ingresso no mundo do trabalho público paranaense – 1/3 de hora atividade para professores(as) – tempo destinado ao trabalho docente fora da sala de aula - eleição para diretores(as) de escolas, além de manter uma luta permanente pelos direitos de uma aposentadoria digna depois de uma vida laboral dedicada aos fazeres do ensino-aprendizagem das gerações.

A reeleição em primeiro turno do governador do estado promoveu uma verdadeira guinada no comportamento de um político que afirmou com todas as letras que não mediria esforços para a valorização da escola pública e de seus Educadores. Em debate com os demais candidatos na APP-Sindicato no dia 19 de agosto, durante a campanha eleitoral, assumiu compromissos com uma pauta extensa que estava até agora em processos de debates, em grupos de trabalho, construção esta que vai por terra com as ultimas medidas adotadas.

Foram inúmero ataques até agora:

- Cancelamento do processo de eleição dos diretores e diretoras das escolas – o governador juntamente com um grupo de deputados estadual, desfez a própria resolução que havia desencadeado todo o processo. As escolas já tinham realizado assembleias, eleito comissões eleitorais e chapas já haviam se inscrito para o pleito marcado para o final de novembro/2014.

- Tarifaço final de ano – Além de penalizar toda a população paranaense com aumentos do IPVA, e a tarifa de ICMS de mais de 95 mil produtos, atacou a previdência pública, taxando em 11% o salário dos aposentados do estado bem como criou o fundo complementar para os futuros servidores públicos, estes fundos tem sido criticados mundialmente especialmente pela insegurança que geram quanto ao futuro pois quebra princípios caros na cultura previdenciária brasileira como o da solidariedade entre ativos e inativos.

- Impedimento de matrículas para 6º anos do Ensino Fundamental e 1º ano do Ensino Médio em muitas escolas de pequeno porte, especialmente as escolas do campo, em curto período em escolas estarão fechadas para sempre, novamente sem ouvir a comunidade escolar nem os diretores.

- Decretos da posse – Não bastasse os mais de 20 projetos de lei do pacotaço, em plena data da posse o governador anuncia um conjunto de decretos que promovem uma não assumida reforma de estado.

Outras dívidas com a Educação:

- 29 mil professores(as) PSS – contratados temporários – com atrasos de pagamento, sem acertos da rescisão, demitidos sumariamente.

- 10 mil funcionários(as) de escola afastados com a promessa de corte de 30 % deste efetivo – as escolas do Paraná carecem de mais funcionários(as) para atender adequadamente os(as) estudantes.

- Não pagamento (conforme o governo anunciara) de 1/3 das férias – cerca de R$ 150 milhões.

- Não pagamento de promoções e progressões de professores(as) e funcionários(as) durante todo o ano de 2014, direito esse garantido pelos Planos de Carreira dos dois segmentos. Essa dívida já soma 90 milhões.

- Atraso sistemático no repasse de parcelas do fundo rotativo – esse recurso são utilizados para a manutenção e pequenos reparos nas escolas.
- atrasos do pagamento de convênios com escolas, entidades da educação especial, escolas itinerantes da reforma agrária.

- cancelamento da distribuição de aulas feitas em dezembro.

- Retomada de portaria antiga sobre o porte de escola – portaria esta que reduz horas para direção das escolas, número de pedagogos e pedagogas, funcionários(as) em número insuficiente para manter as escolas em condições de atender adequadamente os(as) estudantes.

- Superlotação de alunos(as) em salas de aulas.

Não bastasse todo o DESMONTE que denunciávamos como o caos instalado na educação do Paraná, veio mais um pacote de maldades divulgado nesta quarta-feira pela ALEP – Assembleia Legislativa do Paraná!

As mensagens de lei 01/2015 e 02/2015, enviadas pelo governador Beto Richa, se aprovadas pelos deputados(as), promoverão um tão retrocesso nas escolas que não serão recuperados senão em longo prazo. Gerações serão penalizadas com a precarização da escola pública.

Essas mensagens promovem um ataque com retirada de direitos de todos os segmentos dos Trabalhadores(as) em Educação, inclusive os(as) aposentados(as).

GASTOS DO ESTADO – Temos avaliado que a crise financeira do Paraná, passa principalmente pela péssima gestão desta área no governo Richa. Retrocessos na transparência tornam cada vez mais difícil estabelecer uma avaliação adequada e mais precisa. Porém ações governamentais apontam a opção clara deste governo neoliberal, promover estado mínimo com enriquecimento da parcela encastelada no poder: mais de R$ 400 milhões, em publicidade e propaganda, aumento de mais de 4.000% em processamento de dados, rompendo a política de software livre; aumento de 295% para salários dos cargos comissionados; antecipação de receitas extraordinárias que farão faltas futuramente; renegociou precatórios.

Assim sendo, com o agravamento da crise generalizada no interior das escolas paranaenses, iremos para a assembleia estadual no sábado(07), em Guarapuava, num consenso preliminar de que não há mais um dia sem iniciar a greve geral.

O esforço e a pauta central da greve será exatamente lutar para derrotar este pacotaço de desmonte geral dos direitos dos(as) TRABALHADORES(AS) EM EDUCAÇÃO bem como barrar o DESMONTE ORGANIZATIVO E ADMINISTRATIVO DAS ESCOLAS.

Hermes Silva Leão, professor de Educação Física e Pedagogo, é Presidente da APP-Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná

Créditos da foto: Leandro Taques / Mídia Ninja

Texto original: CARTA MAIOR

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Carniceiros da direita são ameaça real

A oposição de direita se divide, hoje, entre duas alas: os bacharéis e os carniceiros. Vale a pena observar como funciona sua dinâmica.

Breno Altman

Ontem à noite (11), o comitê central do movimento pelo impeachment da presidente Dilma se reuniu através de teleconferência, com livre acesso ao público. Mais de cinco mil pessoas acompanharam, durante duas horas, o estranho debate.

A mesa era chefiada por um músico encantado em ser líder de massas e abençoada por um astrólogo que se arrisca como filósofo.

Lobão e Olavo de Carvalho encarnavam estes agitadores da fuzarca.

Eu morri de rir. Uma comédia. Caricaturas do volume-morto da política. Mistura de saudosismo da ditadura com fundamentalismo cristão, em uma versão patética.
Mas engana-se quem os achar inexpressivos ou inofensivos.

No dia 15 de novembro, a turma vai testar seus músculos mais uma vez. Convocaram outra jornada de mobilização.

Há um pedaço doente da sociedade brasileira, que progressivamente se deixa arrastar por narrativas como a desta gente.

Vale a pena observar como funciona sua dinâmica.

A oposição de direita se divide, hoje, entre duas alas: os bacharéis e os carniceiros.

Os bacharéis se organizam em partidos institucionais, disputam eleições, atuam prioritariamente através da imprensa e do parlamento.

Da velha tradição udenista, pelejam pelos interesses da oligarquia sempre em nome da democracia.

Tentam preservar modos civilizados, ainda que hipocritamente. São urubus atrás de carniça, mas não matam suas vítimas.

Esta é a tarefa dos carniceiros.

E são os carniceiros que estão tentando ocupar as ruas do país desde o término das eleições presidenciais.

Eles denunciam fraude eleitoral. Clamam pelo impeachment da presidente.

Demandam a expulsão do PT da vida pública. Alguns se esgoelam por intervenção militar contra o governo de esquerda.

Nas redes sociais, esta patota chega a algumas centenas de milhares. Apenas uma pequena porção, no entanto, coloca o pé no asfalto para apoiar as sandices bradadas por seus gurus.

Os carniceiros fazem parte do ecossistema conservador. Há mais de dez anos estão integrados ao bloco político liderado pelo PSDB.

São sua banda de música e tropa de choque. Andavam escondidos, agora ganharam coragem para mostrar as garras em sociedade.

Os bacharéis se sentem, de quando em quando, incomodados com sua presença. Fedem a mofo. Mas os alimentam diuturnamente.

Bacharéis e carniceiros, aliás, estão sempre a dançar um minueto.

Os discursos e entrevistas dos tucanos contra o resultado eleitoral ou para desestabilizar o governo são cantigas que animam os carniceiros e os deixam à vontade para desfilar contra a democracia.

A simbiose entre ambos setores atingiu seu auge no segundo turno das eleições presidenciais.

Os bacharéis ficaram contentes por, finalmente, terem algo parecido com uma militância tucana de massa. E os carniceiros festejaram que podiam voltar ao salão de baile da aristocracia política.

Mas não é apenas o PSDB e seus aliados que servem de estufa para esta turma.

Os carniceiros encontram cada vez mais espaço na velha mídia. Sua principal representação político-cultural é um punhado de articulistas que organizam a narrativa e o ideário do reacionarismo.

As correntes de esquerda, particularmente o PT, achavam que o melhor caminho era trata-los como loucos e desprezá-los.

Vamos combinar que não foi uma boa solução.

Jamais os valores do conservadorismo mais retrógado – racismo, preconceito social, discriminação regional, homofobia, machismo, individualismo – circularam com tanta desenvoltura no Brasil pós-ditadura.

O fato é que os demônios morais e as ideias político-econômicas dos carniceiros ganharam audiência nos últimos anos. Em parte, porque era do interesse dos bacharéis, por ser funcional a emergência de frações reacionárias mais aguerridas, capazes de mobilizar fatias das camadas médias.

Mas isto ocorreu também porque o petismo, para evitar o mau humor institucional e empresarial, preferiu cultura de governo baseada na baixa intensidade de enfrentamento político-ideológico.

Os carniceiros se sentiram livres, beneficiados pelo acolhimento dos bacharéis e a displicência da esquerda.

O pensamento da ultradireita, antes repugnado e inadmissível mesmo em boa parte dos meios conservadores de comunicação, reconquistou tribunas e abriu novas frentes de influência.

Seus defensores parecem ser ridículos, e efetivamente o são. Mas não foram poucos os palhaços que, de riso em riso, ganharam força para quebrar a coluna vertebral de regimes constitucionais.

A propósito, até quando as forças progressistas, a começar pelo PT, deixarão os carniceiros, protegidos pelos bacharéis, com a iniciativa de tomar as ruas que pertencem à democracia?

(*) Publicado originalmente no Opera Mundi.

Créditos da foto: Opera Mundi

Replicado: CARTA MAIOR

sábado, 8 de novembro de 2014

Bolivarianismo norte-americano

Estadunidenses foram às urnas para escolher deputados, senadores e governadores e aproveitaram para definir um amplo conjunto de leis através de referendos

Vinicius Wu (*)

Em meio à onda de desinformação e mistificação que tem caracterizado os debates a respeito da proposta de plebiscito sobre a Reforma Política e do Decreto Presidencial 8243 - que insitui a Política Nacional de Participação - vale pena darmos um giro até as eleições legislativas norte-americanas, ocorridas na ultima terça-feira. A menos que consideremos os EUA um exemplo de república bolivariana, voltaremos com a certeza de que o que temos visto por aqui não é nada além de histerismo ideológico demofobico ou, simplesmente, desonestidade intelectual.

Os americanos foram às urnas para escolher deputados, senadores e governadores e aproveitaram para definir um amplo conjunto de Leis estaduais, através de referendos. Foram debatidas 125 propostas de leis, versando sobre os mais diversos temas, que vão desde a liberação do uso recreacional da maconha até a definição de regras e limites à prática do aborto.

Questões polêmicas puderam ser resolvidas através de consulta direta à população, sem que os congressistas se sentissem usurpados de seu direito de legislar. A capital Washington aprovou, por exemplo, a legalização da posse e o cultivo pessoal de maconha com 69% de votos favoráveis à medida. Estados como o conservador Alasca também aprovaram leis semelhantes.

Em algumas localidades, até mesmo políticas públicas na área da educação foram submetidas ao voto popular. No Arkansas, em Nebraska e em Dakota do Sul o aumento do salário mínimo foi objeto de votação. Ou seja, temas que dizem respeito tanto à atuação do legislativo quanto do executivo são submetidos à consulta pública nos EUA.

Portanto, a insistência de setores conservadores - no parlamento e na grande mídia - em caracterizar os mecanismos de consulta à população como ataques à democracia representativa, ancorados em uma suposta vocação bolivariana, não se sustenta nem mesmo se tomarmos como referência a democracia norte-americana, com todos os seus limites e conservadorismo.

Consultas periódicas à sociedade, através de plebiscitos, referendos, conselhos e outros mecanismos servem tanto ao fortalecimento das Insituicoes democráticas, através do reforço de sua legitimidade, quanto à valorização da cidadania, convocada a opinar sobre as grandes questões que dizem respeito a vida em comunidade. Em diversos países, consultas públicas fazem parte do cotidiano de seus regimes democráticos e cumprem um papel legitimador indispensável à vitalidade dos mesmos.

A sociedade brasileira clama por medidas concretas que sejam capazes de inibir a malversação de recursos públicos, além de promover o aumento da transparência em todos os Poderes da República. Não basta realizarmos pequenos ajustes em nosso sistema eleitoral, através de acordos no Congresso Nacional. É preciso realizarmos uma verdadeira refundação de nossas instituições democráticas. E para que isso ocorra podemos, sim, extrair lições de outros modelos de democracia, como o americano. Talvez assim, possamos superar, verdadeiramente, nossa secular tendência em resolver nossos impasses "por cima", bem distante do calor das ruas e da opinião soberana de nosso povo.

(*) Secretário-Geral de Governo do Rio Grande do Sul, coordenador do Gabinete Digital.

Texto original: CARTA MAIOR

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

“Bolivarianos”, EUA fazem 146 consultas públicas

Estados Unidos também são bolivarianos? EUA realizam 146 consultas públicas nesse dia 4
O debate sobre a participação popular está em pauta no Brasil, especialmente após a derrubada, na Câmara dos Deputados, do decreto presidencial que instaura a Política Nacional de Participação Social. A direita e os parlamentares conservadores atacam  a democracia participativa, falando que o decreto instauraria o bolivarianismo no Brasil (?), na tentativa de desqualificar os movimentos sociais e a participação social que vêm sendo implementada no Brasil . Como já mostramos aqui, a direita parece não entender que, na democracia, quanto mais participação do povo, melhor.
É assim também nos Estados Unidos, que realizam nesta terça-feira, 4, eleições para o Parlamento ediversas consultas públicas, plebiscitos e referendos. Em pauta, a reforma da política sobre o uso de drogas, além de procedimentos legais de aborto. O país atingirá o número recorde de 146 consultas públicas em 42 estados norteamericanos.
Longe de se tornar uma ditadura bolivariana, os Estados Unidos  fazem uso dos conselhos populares para decisões em 24 estados da nação. É assim também nas outras grandes democracias consolidadas ao redor do mundo, como é o caso dos plebiscitos na Suécia, ou dos referendos canadenses.
Enquanto isso, no Brasil, que também já passou por importantes momentos de participação social, sendo exemplo mundial, setores da mídia e da oposição ainda se utilizam do antigo discurso da polarização política para evitar a participação do povo nas decisões políticas do país. Sob a eterna ameaça do “golpe comunista” que nunca chegou, a direita se aproxima das vertentes mais reacionárias dos discursos políticos, inflamadas em xenofobia, preconceito e má-informação.
A regulamentação da participação social nas esferas do poder público é constitucional e busca reforçar o que já está determinado no artigo 1, parágrafo único da Constituição Federal de 1988: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”. Afinal, quem tem medo de participação popular?
Leia também:

Texto original: VI O MUNDO

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Por que Aécio Neves nunca processou Juca Kfouri



Recebo e-mail de colega da “blogosfera suja” – termo gestado por elucubração de José Serra em 2010, indignado com o contraditório, essa praga que tanto apavora políticos mimados e/ou blindados pela mídia como o ex-governador paulista.

Por, aparentemente, o colega preferir não se envolver diretamente no caso, repassou-me redescoberta de um episódio curioso. Para compreendê-lo melhor, porém, há que voltar ao debate de terça-feira (14) entre Dilma Rousseff e Aécio Neves na TV Bandeirantes.

Aécio começou o debate ostentando um ar debochado e irônico na cara, em claro menosprezo à adversária. Todavia, essa conduta mudaria entre o segundo e o terceiro blocos do programa.

Após ser insultada pelo adversário por perguntá-lo sobre o aeroporto que mandou construir com dinheiro público em uma fazenda de sua família, na abertura do terceiro bloco Dilma formulou outra questão que pareceu desestruturá-lo ainda mais, emocionalmente.

No vídeo abaixo, a pergunta de Dilma a Aécio sobre “violência contra mulheres”.



A parcela menos informada sobre política que assistia ao debate da Band por certo não captou o significado oculto na pergunta de Dilma. Aécio não passou recibo verbalmente, apesar de seu semblante ter espelhado a preocupação que a pergunta lhe causou.

Dilma, porém, tinha um objetivo muito claro ao apresentar essa questão ao adversário. Ele acabara de ter uma reação tão furiosa à questão (legítima) sobre o aeroporto que construiu nas terras de sua família com o dinheiro dos mineiros que chegou a dar a impressão de que agrediria a mulher com quem debatia.

A agressão, aliás, até ocorreu, mas, contra Dilma, só ocorreu verbalmente. O mesmo não se pode dizer em relação a outra mulher muito mais próxima do tucano, de acordo com post publicado pelo jornalista Juca Kfouri em seu blog em 2009.

Abaixo, o post do jornalista esportivo em seu blog no UOL.


O desinteresse da grande mídia sobre a denúncia de Juca foi total e condizente com a blindagem que tucanos de alto coturno sempre receberam dessa mídia. Porém, a afirmação dele guarda relação com outra notícia, agora velada.

Juca fez a denúncia no dia 1º de novembro de 2009. Seis dias antes, a “colunista social” Joyce Pascowitch publicou, em seu site de fofocas sobre socialites, um tal Glamurama, relato que, segundo a fonte do Blog, tem íntima relação com a denúncia de Juca.


O que você, homem, faria se um jornalista de renome e com grande espaço na mídia, tal qual Juca Kfouri, o acusasse de bater em mulher? No mínimo, sendo mentira você moveria um processo contra o caluniador. E mesmo sendo verdade, se não houvesse provas da acusação, faria a mesma coisa.

Aécio nunca respondeu a Juca e nem o processou. Se a coluna de Pascowitch tiver mesmo relação com a denúncia do jornalista esportivo, a explicação está aí: não seria possível processar devido ao grande número de testemunhas do fato. Simples assim.

PS: o tuiteiro Rodrigo mostra que outros veículos de comunicação foram bem mais explícitos do que Joyce Pascowitch. Abaixo, matéria do jornal Hora do Povo


Texto original: BLOG DA CIDADANIA (Eduardo Guimarães)

Compadrio, boquinhas e mamatas: Aécio morava no Rio e “servia” em Brasília

publicado em 15 de outubro de 2014 às 11:03



Da Redação

A blogosfera noticiou antes que a grande mídia. Saiu, por exemplo, no Amigos do Presidente Lula e noTijolaço.


Mesmo morando no Rio de Janeiro, ele foi “assessor” do pai, o deputado federal Aécio Ferreira da Cunha,apoiador da ditadura militar que, em uma de suas campanhas, pré-golpe de 1964, está na lista dos que receberam dinheiro da CIA.

Isso mesmo, Aécio morava no Rio e “trabalhava” em Brasília.

A admissão do agora candidato diz que ele tinha 19 anos de idade quando foi contratado.

Servia “remotamente”, diz hoje a Folha de S. Paulo, sem dizer que no período em tela, 1980, a internet não existia no Brasil.


Mais tarde, como também admitiu o candidato tucano, ele foi indicado para uma diretoria da Caixa Econômica Federal, durante o governo Sarney. Tinha 25 anos de idade. À época o ministro da Fazenda era Francisco Dornelles, primo de Aécio.

Durante o debate da Band, Dilma Rousseff também mencionou — mas não conseguiu articular direito — o fato de que Aécio, governador de Minas, beneficiou empresas da própria família.

Trata-se da rádio Arco-Íris, cuja concessão Aécio recebeu durante o governo Sarney.


Trechos:

Ao apurar a estranha situação, o bloco Minas sem Censura [de oposição parlamentar a Aécio] e a própria imprensa descobriram que a rádio [dona do Land Rover que o agora candidato usava quando foi parado em blitz no Rio de Janeiro] pertencia a Aécio, à sua irmã Andréa Neves e à mãe Inês. Outros seis veículos de luxo também foram declarados em nome da empresa de comunicação da família Neves. Considerados estranhos os fatos, o bloco de oposição continuou a investigar a rádio Arco-Iris e descobriu, como já noticiado, que a empresa da família Neves recebeu somente em 2010 cerca de R$ 210 mil de publicidade dos cofres públicos mineiros, o que fundamenta improbidade administrativa.
O bloco quer informações também sobre o valor total de publicidade com a Arco-Iris durante todo o período do governo Aécio/Anastasia (2003/2011) e nas outras duas empresas de comunicação em nome da presidente do SERVAS [Serviço Voluntário de Assistência Social de Minas Gerais]: a rádio São João Del Rei S/A e Editora Gazeta de São João Del Rei Ltda. No caso concreto da rádio Arco-Íris, empresa de propriedade da família Neves há pelo menos 15 anos, constata-se, e o próprio governo admite, que houveram repasses financeiros do Estado àquela empresa, seja através de empresas estatais, seja através da administração direta estadual, a título de pagamento por publicidade.
É de conhecimento público e geral, que a Sra. Andreia Neves da Cunha exerceu, durante todo o mandato de seu irmão, Aécio Neves, a função de Coordenadora do Núcleo Gestor de Comunicação Social, responsável pela elaboração da política de comunicação não só da subsecretaria de Comunicação Social bem como de todas as demais secretarias, autarquias, empresas públicas e fundações estaduais. O pagamento de publicidade à empresa de propriedade da família Neves, com o inegável conhecimento de sua administradora, Sra. Andrea Neves, põe dos dois lados da relação comercial a mesma pessoa: quem determina o quanto, quando e como vai ser pago é a mesma pessoa que presta o serviço e que recebe o pagamento. Tal relação não seria promíscua e improba caso se tratasse de uma relação comercial entre particulares. Mas trata-se de recursos públicos pagos a uma empresa particular de propriedade do gestor daqueles recursos.
*****
“Como em dezembro de 2010 o Aécio se tornou dono da rádio Arco-Íris, cujo valor de mercado é de R$ 15 milhões, se o patrimônio total declarado dele é R$ 617.938,42?”, quer saber o deputado Sávio Souza Cruz (PMDB), vice-líder do bloco. “Também por que Aécio indicou para presidir a Codemig justamente o dono da empresa do jatinho que ele viaja para cima e para baixo?”
Considerando a construção dos aeroportos de Cláudio e Montezuma, cidades onde ficam terras da família materna e paterna de Aécio Neves — em Montezuma, Aécio herdou com a irmã cerca de 900 hectares do pai –, fica caracterizado um quadro de nepotismo e mamatas nas tetas de instituições públicas que dão bem um dimensão da hipocrisia do tucano quando fala em “meritocracia”.

O curioso é que, em recente entrevista à revista Época, Aécio prometeu acabar com… as “boquinhas” do PT.


Leia também:
Cláudio: Sem acesso ao aeroporto, motoristas se benzem
Montezuma: Cidade tem aeroporto, mas não tem hospital
Montezuma: Veja o mini-doc exclusivo do Viomundo sobre o aecioporto

Texto replicado deste endereço: VIO O MUNDO