A Atlas, segundo o Valor Econômico principal referência do movimento, possui cerca de 450 instituições, inclusive em países como Venezuela, China, Irã.
Redação do Jornal GGN
Quem inspira os meninos da ultra-direita brasileira que agitam protestos contra o PT e a presidente Dilma Rousseff? Segundo reportagem publicada ontem, dia 27, no Valor, os jovens são inspirados ideologicamente pela Atlas Network, uma empresa sediada em Washington (EUA), que prega o livre mercado, e que mantém parceria com instituições brasileiras, que recebem dinheiro para promover palestras, divulgar artigos, livros, etc.
"Esses institutos têm servido de fonte de informação e atraído a atenção de adolescentes e jovens na faixa dos 20 anos, muitos deles participantes dos protestos de março e de abril", escreveu o jornal.
O presidente da Atlas, Alejandro Chafuen, argentino radicado nos Estados Unidos, o organismo não se envolve em "assustos de rua ou política em outros países". Para ele, foi necessário, inclusive, se afastar de instituições ligadas ao Tea Party, uma ala conservadora do Partido Republicano.
No caso do Brasil, Chafuen enxerga a influência da Atlas sobre o pensamento dos jovens que protestam contra os governos do PT. "Obviamente há certa correlação entre as pessoas que passam por nossos programas e pelos institutos com que trabalhamos e o que está acontecendo aqui", disse ao Valor.
No Brasil, a Atlas lista como parceiras o Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista, do Rio; Estudantes Pela Liberdade, de Belo Horizonte; o Instituto de Estados Empresariais, de Porto Alegre; o Instituto de Formação de Líderes, também de Belo Horizonte; o Instituto Liberal, do Rio; o Instituto Liberdade, de Porto Alegre; o Instituto Ludwig Von Mises, de São Paulo; o Instituto Milenium, também do Rio e o Ordem Livre, de Petrópolis.
O presidente do Mises Hélio Beltrão disse ao Valor que o foco em São Paulo são jovens universitários liberais que possam disseminar a mensagem do grupo nas instituições que, na visão dele, são doutrinadas pela esquerda.
O cientista político Fábio Ostermann, um dos fundados do Movimento Brasil Livre (MBL) - que marcha de São Paulo a Brasília cobrando o impeachment de Dilma - trabalhou por dois meses e meio para a entidade americana. Ele diz que ainda não houve doações para o MBL pela Atlas.
A Atlas distribuiu no Brasil cerca de 20 mil dólares por ano, segundo Chafuen. O grupo Estudantes pela Liberdade recebeu no ano passado cerca de 10 mil dólares. "O dinheiro que mantém as atividades da Atlas vem, em sua maioria, de fundações e cidadãos dos Estados Unidos. (...) Os doadores têm preferências distintas. Alguns são religiosos conservadores; outros, libertários."
A Atlas possui hoje cerca de 450 instituições espalhadas pelo mundo, inclusive em países como Venezuela, China, Irã, Nepal.
Créditos da foto: GGN
Texto original: CARTA MAIOR
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domingo, 3 de maio de 2015
sábado, 2 de maio de 2015
A caminhada do PSDB para a direita está completa
O PSDB se tornou um boneco de ventríloquo: aparelhado pelas forças sociais conservadoras, coloca a truculência policial ao dispor do reacionarismo.
Maria Inês Nassif
A violenta repressão da Polícia Militar a uma manifestação de professores em Curitiba – que justificadamente protestavam contra o assalto do governo do Estado a um fundo de Previdência que é deles – traz preocupações que transcendem a própria violência. O perfil dos governos do PSDB nos Estados onde, teoricamente, o partido tem líderes de vocação nacional, confluem para um conservadorismo orgânico, para um modelo tucano de governar vocacionado ao fiscalismo, à visão desumanizada do servidor público e do que se considera adversários políticos, ao desprezo pela gestão pública e, fundamentalmente, para uma opção por uma política de segurança pública pautada pela força bruta.
Se isso for considerado no plano nacional, e numa conjuntura em que a esquerda está enfraquecida, a perspectiva futura de poder federal – se as forças no poder não se reerguerem – é de governos altamente conservadores, fiscalistas, desumanizados, alheios à função social da gestão pública e truculentos. Esse é o pior dos Brasis pensados para o futuro.
Os dois governos, de Beto Richa (PR) e Geraldo Alckmin (SP), fecham o ciclo da caminhada perseverante do PSDB rumo à direita. É a linha ideológica, hoje, o principal liame entre os políticos do partido e sua base partidária, e ela foi tecida de fora para dentro, já que o partido nunca conseguiu resolver uma dificuldade histórica de constituir-se em formulador ideológico e formador de quadros.
Na verdade, são as forças sociais conservadoras e os meios de comunicação, apoiadores incondicionais do PSDB, que têm desempenhado o papel de escolher os quadros tucanos e de definir ideologicamente a legenda. Por esse filtro, jamais a qualidade do quadro é colocado como condição para sua ascensão midiática, que por sua vez define as escolhas internas do partido: o apoio é simplesmente proporcional à capacidade ofensiva (no pior sentido) do político, nunca ao que ele pode agregar a um projeto de Brasil ideológico e consistente.
No momento em que se aliou a essas forças de forma radical, o PSDB acabou se tornando prisioneiro de sua própria armadilha. A estratégia de desqualificar a política institucional, usada para minimizar os ganhos eleitorais do petismo, acabou se constituindo na desqualificação de si próprio. Para as forças sociais e para os meios de comunicação aliados ao PSDB por conveniência, o partido é apenas um instrumento na guerra deflagrada para vencer a esquerda, que teve no petismo a sua principal expressão.
Se a esquerda institucional hoje tem sérios problemas de qualidade de quadros, a direita mais ainda. Hoje, os políticos que “repercutem” as denúncias cavadas diuturnamente pela mídia tradicional, numa estratégia perseverante de desconstrução da esquerda, têm uma condição não melhor do que o boneco no colo do ventríloquo: fala o que o dono quer ouvir. Sem condições de alçar voos pela qualidade de seus quadros, o PSDB depende hoje desesperadamente, e unicamente, de ser o escolhido pela mídia tradicional como instrumento de guerra; e de, nessa condição, ser o alvo preferencial dos financiamentos empresariais dentro da oposição. Com dinheiro e com apoio das mídias, não há condições de qualquer outro partido oposicionista concorrer com ele como aparelho ideológico preferencial da direita.
Como força política institucional, o PMDB, hoje, estaria muito mais apto a desempenhar esse papel – a substância ideológica peemedebista, depois de extraído o sumo da fisiologia, é francamente conservador. Mas não vai. Isso porque o PMDB de Eduardo Cunha e Renan Calheiros não é um partido nacional com chances de ser aparelhado por esses grupos, mas uma soma de chefes políticos estaduais e de grandes interesses econômicos comezinhos e particulares. Os pemedebistas sobrevivem do outro lado do balcão, o governista, com mais segurança, hoje com chances de grande autonomia, e a um custo muito mais alto para essas forças sociais do que a que impõe um PSDB sem quadros e sem personalidade própria. As fragilidades tucanas são atrativas para a direita social porque isso o torna altamente manipulável.
A ausência de vida interna do PSDB e o aparelhamento do partido pelos meios sociais e forças políticas conservadoras, ao longo dos últimos 12 anos, produziu um saldo desalentador. O candidato a presidente nas últimas eleições, derrotado, não consegue sequer formular uma estratégia de oposição minimamente consistente para construir uma personalidade própria, sua e do partido. A única estratégia política de Aécio Neves, presidente nacional tucano, é tirar a candidata vencedora nas eleições do ano passado do poder, a qualquer custo, e antes que cumpra o mandato para o qual foi eleita.
Nos Estados, Alckmin e Richa professam o conservadorismo que os apoiam usando a linguagem mais conservadora disponível: o uso da truculência policial, que se submete ao executivo estadual. No Senado, a profissão do preconceito como arma ideológica, e a mesma truculência, se consolidam. E tudo isso leva de roldão o que se considerava, há pouco mais de duas décadas, a nata da inteligência socialdemocrata do Brasil. Não é à toa que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fala, desfala e desordena pensamentos, como uma biruta numa tempestade de ventos. Este não é um cenário propício para o exercício da inteligência.
Texto original: CARTA MAIOR
domingo, 19 de abril de 2015
Aécio Neves é o novo Joaquim Silvério dos Reis; achincalha a memória de Tiradentes e do avô
Aécio completa sua conversão ao udenismo e achincalha de vez a memória de Tancredo Neves
Ignacio Godinho Delgado
O dia 21 de abril representa muito para todos os brasileiros, em especial os nascidos em Minas Gerais, pelo registro das mortes de Tiradentes e Tancredo Neves.
Ligado ao PSD e depois ao MDB e PMDB, Tancredo ficou conhecido como um político liberal, de inclinação conservadora e grande capacidade de conciliação, mas destacou-se, também, por posições firmes na defesa da democracia e no combate ao golpismo, típico da prática política da UDN, adversária do campo político criado em torno de Vargas, representado pela aliança PSD-PTB.
Basta lembrar sua atitude em 23 de agosto de 1954, quando, ministro da Justiça de Vargas, na última reunião ministerial antes do suicídio do presidente, pregava a resistência contra a ação golpista que se avolumava, com apoio de boa parte da imprensa brasileira, na qual já atuavam as mesmas famílias que controlam ainda hoje os principais veículos da mídia do Brasil, de onde partem as principais ações contra a continuidade do governo de Dilma Rousseff.
Apesar de seu perfil conservador, em toda a trajetória política de Tancredo Neves, não consta também qualquer iniciativa contrária ao legado trabalhista e nacionalista de Vargas. Junto ao golpismo, a oposição a tal legado marcaria a trajetória e a identidade da UDN, em seu combate sem tréguas a Vargas e àqueles que entendia serem seus herdeiros. Incapaz de alcançar a presidência pelo caminho das urnas, clamou seguidamente pelo golpe, contra Vargas, Kubitschek e Goulart. O centro de seu discurso era o combate à corrupção, cortina de fumaça a envolver a oposição ao trabalhismo, denunciado como demagogia e populismo, e à política nacionalista de Vargas.
Durante e depois das eleições de 2014, Aécio Neves passou a utilizar-se do discurso e do vocabulário da UDN, inclusive a famosa expressão mar de lama, de Carlos Lacerda, além de estimular ações claramente golpistas, como as iniciativas no TSE para impedir a diplomação e a posse de Dilma Rousseff, e a agora anunciada disposição defender o impeachment da presidenta eleita. Não importam o aeroporto de Cláudio, a distribuição de verbas públicas para rádios da família, o aparecimento do nome de Aécio Neves na Operação Lava Jato… O discurso da velha UDN e de seus herdeiros atuais não tem nada a ver com suas práticas. É apenas um recurso para inciativas golpistas, ancorado na complacência da mídia, cuidadosamente seletiva nas denúncias de corrupção.
Desde o ano passado Aécio Neves tem se posicionado contra o regime de partilha na exploração do Pré-Sal, defendendo o retorno do regime de concessão, preferido pelas grandes companhias ocidentais. Naquele que é, pois, o tema mais importante da disputa atual entre nacionalismo e entreguismo, Aécio ficou mais uma vez com os herdeiros da UDN.
Em 16 de abril passado, Aécio pronunciou-se a favor da primeira versão do PL-4330, que propõe ampliar a terceirização no Brasil, de certa forma deplorando o recuo do PSDB sobre a questão (). Embora tenha votado em peso a favor do PL-4330, os tucanos, diante da repercussão negativa nas redes sociais e das manifestações contrárias das ruas, buscaram acertos inclusive com o PT para modificar o projeto. Aécio não! Aécio quer o PL-4330 original, que rasga de vez a CLT, complementando melancolicamente sua conversão plena ao udenismo.
Apesar de construir sua carreira política à sombra de seu parentesco com Tancredo Neves, Aécio passou a representar a expressão mais reacionária, na cena brasileira atual, dos herdeiros dos principais adversários do avô. A memória de Tancredo Neves não merece.
Em 21 de abril, os brasileiros e mineiros evocarão em suas lembranças os nomes de Tiradentes e Tancredo Neves. Infelizmente, junto a eles, não há como esquecer de Joaquim Silvério dos Reis e de Aécio Neves.
Ignacio Godinho Delgado é professor de História e Ciência Política na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia-Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT-PPED). Doutorou-se em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1999, e foi Visiting Senior Fellow na London School of Economics and Political Science (LSE), entre 2011 e 2012.
Leia também:
Texto original: VI O MUNDO
domingo, 12 de outubro de 2014
Pobres contra ricos? São Paulo contra o Nordeste?
Pobres contra ricos? As pesquisas não deixam dúvidas, é uma questão social. São Paulo contra o Nordeste? É manipulação ideológica.
por Emir Sader em 11/10/2014 às 12:13
A avaliação amplamente favorável dos governos do PT em relação aos governos tucanos teria dado uma vitória tranquila para a Dilma. Só se torna uma disputa tão acirrada, aberta, pelo uso brutal do monopólio dos meios de comunicação – partido da oposição, como confessou diretora da FSP na campanha de 2010 - que se aproveita do maior erro cometido pelo governo: não ter avançado na democratização dos meios de comunicação.
A parada agora se decide entre o nível de rejeição fabricado contra a Dilma – em que os preconceitos tem um papel fundamental – e a capacidade da militância de neutralizar relativamente o trabalho dos monopólios midiáticos, convencendo das consequências de uma eventual vitória tucana.
A polarização histórica entre a esquerda brasileira e a direita se deu sempre sob essa forma – conquistas sociais, soberania politica e papel ativo do Estado, por um lado, ajuste econômico, subordinação externa e centralidade do mercado, por outro. Foi assim com o Getúlio, que personificou os avanços nos direitos dos trabalhadores, a construção do primeiro projeto nacional e a refundação do Estado no Brasil. A direita se apoiava na ditadura politica como seu argumento fundamental, tratando de desqualificar o fortalecimento do Estado.
Hoje o Brasil parece dividido entre ricos e pobres, entre São Paulo e o nordeste, forma que assume a polarização entre as questões social e nacional por um lado, a questão democrática – no sentido liberal, de menos Estado e, portanto, mais mercado. É uma divisão real do ponto de vista social. Os de menor renda, sempre postergados, foram os mais beneficiados pelas politicas do governo, com razão se deixam enganar menos pela mídia, porque suas vidas mudaram realmente para melhor. Os mais ricos ou setores da classe media estão mais envoltos nos mecanismos de manipulação da mídia.
A divisão geográfica reflete, em parte a divisão social, mas não completamente. Porque se São Paulo é o estado que concentra mais riqueza e, também, ao mesmo tempo, um estado que acumula imensas desigualdades, com grande pobreza e miséria. É mais um caso de hegemonia da elite dominante, que mesmo reproduzindo as desigualdades, conseguiu montar um mecanismo de propaganda publica e de manipulação da consciência de amplos setores da sociedade – inclusive de parte significativa dos próprios pobres –
Pobres contra ricos? As pesquisas não deixam dúvidas, é uma questão social. São Paulo contra o Nordeste? É manipulação ideológica.
Texto original: CARTA MAIOR
por Emir Sader em 11/10/2014 às 12:13
A avaliação amplamente favorável dos governos do PT em relação aos governos tucanos teria dado uma vitória tranquila para a Dilma. Só se torna uma disputa tão acirrada, aberta, pelo uso brutal do monopólio dos meios de comunicação – partido da oposição, como confessou diretora da FSP na campanha de 2010 - que se aproveita do maior erro cometido pelo governo: não ter avançado na democratização dos meios de comunicação.A parada agora se decide entre o nível de rejeição fabricado contra a Dilma – em que os preconceitos tem um papel fundamental – e a capacidade da militância de neutralizar relativamente o trabalho dos monopólios midiáticos, convencendo das consequências de uma eventual vitória tucana.
A polarização histórica entre a esquerda brasileira e a direita se deu sempre sob essa forma – conquistas sociais, soberania politica e papel ativo do Estado, por um lado, ajuste econômico, subordinação externa e centralidade do mercado, por outro. Foi assim com o Getúlio, que personificou os avanços nos direitos dos trabalhadores, a construção do primeiro projeto nacional e a refundação do Estado no Brasil. A direita se apoiava na ditadura politica como seu argumento fundamental, tratando de desqualificar o fortalecimento do Estado.
Hoje o Brasil parece dividido entre ricos e pobres, entre São Paulo e o nordeste, forma que assume a polarização entre as questões social e nacional por um lado, a questão democrática – no sentido liberal, de menos Estado e, portanto, mais mercado. É uma divisão real do ponto de vista social. Os de menor renda, sempre postergados, foram os mais beneficiados pelas politicas do governo, com razão se deixam enganar menos pela mídia, porque suas vidas mudaram realmente para melhor. Os mais ricos ou setores da classe media estão mais envoltos nos mecanismos de manipulação da mídia.
A divisão geográfica reflete, em parte a divisão social, mas não completamente. Porque se São Paulo é o estado que concentra mais riqueza e, também, ao mesmo tempo, um estado que acumula imensas desigualdades, com grande pobreza e miséria. É mais um caso de hegemonia da elite dominante, que mesmo reproduzindo as desigualdades, conseguiu montar um mecanismo de propaganda publica e de manipulação da consciência de amplos setores da sociedade – inclusive de parte significativa dos próprios pobres –
Pobres contra ricos? As pesquisas não deixam dúvidas, é uma questão social. São Paulo contra o Nordeste? É manipulação ideológica.
Texto original: CARTA MAIOR
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